Guilherme Bergamini/ALMG
Lucas Lasmar denuncia falhas do sistema Tasy na Fhemig e cobra mudanças após audiência na ALMG
- 08/06/2026 às 10h
- Maya Sangawa
O sistema que o Governo de Minas apresentou como avanço tecnológico para a rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) tornou-se, na prática, uma fonte de denúncias graves. Contratado para substituir o antigo sistema SIG, o Tasy centraliza o gerenciamento de prontuários médicos, prescrições, dispensação de medicamentos e demais informações assistenciais da rede estadual — e foi colocado no banco dos réus durante audiência pública realizada no dia 2 de junho pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A reunião foi solicitada pelo deputado estadual Lucas Lasmar (Rede) e reuniu profissionais da saúde e representantes sindicais, que trocaram a narrativa oficial de modernização por relatos de atrasos, burocracia, falhas operacionais e risco à vida de pacientes.
A implantação teve início em abril de 2023 pela Maternidade Odete Valadares e foi sendo expandida para o Instituto Raul Soares, o Complexo Hospitalar de Barbacena, as Casas de Saúde Santa Isabel, Santa Fé e Padre Damião, até chegar ao Hospital Júlia Kubitschek, onde entrou em operação em fevereiro deste ano. A próxima etapa prevista é o Hospital João XXIII, principal referência em urgência e emergência do estado.
Um paciente, uma burocracia, uma morte
O relato mais perturbador da audiência veio do Hospital Júlia Kubitschek, em Belo Horizonte. A técnica de enfermagem Carolina Guedes descreveu o caso de um paciente em estado grave que deixou de receber uma medicação porque o sistema exigia o registro do lote de um equipo intravenoso. Quando o material foi finalmente liberado, o paciente já não estava mais vivo.
“Faleceu sem nem receber o medicamento a que tinha direito”, disse Carolina, em um depoimento que emocionou os presentes e condensou, em uma única tragédia, o temor dos trabalhadores diante da interferência da burocracia digital em situações de urgência.
Não foi um caso isolado. Servidores de diferentes unidades da Fhemig descreveram um sistema lento, instável e excessivamente burocrático. Pacientes esperam mais de uma hora para receber medicação; equipes de enfermagem gastam até 40 minutos só para solicitar um medicamento. As reclamações incluem ainda duplicidade de prescrições, demora na liberação de fármacos e múltiplas validações para procedimentos que, antes, eram executados com muito mais agilidade.
A enfermeira Silvana Teixeira, do Hospital Regional de Barbacena, foi além: afirmou que a implantação do Tasy agravou o adoecimento mental dos servidores e relatou uma falha que poderia ter sido fatal — a prescrição de uma superdosagem de medicamento que só não foi administrada porque um profissional identificou o erro a tempo.
Gestão defende o sistema; Lucas Lasmar rebate
Representantes da Fhemig reconheceram as dificuldades do período de transição, mas sustentaram a aposta na plataforma. A assessora estratégica do Complexo de Especialidades, Érika Inácio, defendeu que o Tasy foi desenvolvido para aumentar a segurança dos pacientes e que toda mudança exige adaptação. O coordenador do projeto, Lincoln Chaves, destacou que a plataforma atende exigências regulatórias, amplia a rastreabilidade dos procedimentos e passa por ajustes para reduzir filas na farmácia e melhorar a integração entre sistemas.
A argumentação não convenceu o deputado Lucas Lasmar. Com base em fiscalizações realizadas nas próprias unidades, o parlamentar contestou a versão apresentada pelos gestores com firmeza. “Ninguém é contra a atualização do sistema. Ou vamos colocar em prática a fala de vocês, ou vamos viver no país das maravilhas esperando que o sistema funcione daqui a três anos”, disparou.
Problema maior do que um software
A audiência pública foi mais um capítulo de uma atuação parlamentar que vem se intensificando. Em 11 de maio, Lasmar visitou o Hospital Júlia Kubitschek acompanhado de representantes sindicais e servidores. O relatório da visita revelou um quadro preocupante: falta de pessoal, internet insuficiente para suportar o novo sistema, pacientes aguardando vaga ou transferência por dias sentados em cadeiras na emergência e equipamentos parados enquanto usuários enfrentavam condições precárias de atendimento.
Os problemas, contudo, não se resumem ao Tasy. Lasmar também apontou alas fechadas há anos, déficit crônico de profissionais, pacientes internados em poltronas e setores essenciais sem manutenção adequada. Além do Júlia Kubitschek, o deputado já realizou fiscalizações no Hospital João XXIII e no Hospital Infantil João Paulo II.
No campo legislativo, Lasmar tem apresentado propostas voltadas à proteção dos trabalhadores da rede estadual. O Projeto de Lei Complementar 96/2026 regulamenta as escalas de plantão dos servidores da Fhemig e do Ipsemg, estabelece períodos mínimos de descanso e alimentação entre jornadas, cria regras para compensação de horas e trocas de plantão e busca coibir plantões sem remuneração. Já o Projeto de Lei 4.934/2025 propõe que o adicional de insalubridade passe a ser calculado sobre o salário do cargo ocupado pelo trabalhador — e não sobre o salário mínimo —, tornando o benefício mais condizente com os riscos enfrentados diariamente.
“Os mais de 15 mil profissionais da Fhemig reclamam que não conseguem tirar férias-prêmio, muitas vezes não conseguem sequer ter horário de almoço e enfrentam uma rotina de sobrecarga constante. Nosso trabalho é fiscalizar, cobrar soluções e criar mecanismos para garantir mais dignidade e segurança a esses trabalhadores, porque a valorização dos servidores também significa um atendimento melhor para a população”, afirmou o deputado.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Fhemig (Sindpros), Carlos Augusto Martins, acrescentou que os problemas tecnológicos se somam à falta de pessoal e às denúncias de assédio moral, com plantonistas sendo pressionados a assumir jornadas extras para cobrir o déficit de servidores.
Próximos passos
Ao encerrar a audiência, o deputado Lucas Lasmar anunciou que solicitará providências ao Governo de Minas, incluindo medidas para reforçar o quadro de pessoal da Fhemig e a convocação da presidente da fundação para prestar esclarecimentos em nova audiência pública na ALMG.
Para o parlamentar, a urgência está em evitar que os erros do Júlia Kubitschek se repitam no Hospital João XXIII, unidade de alta complexidade que atende pacientes de todo o estado e está na fila para receber o sistema.
“Não podemos permitir que um hospital que atende pacientes de todo o estado enfrente os mesmos problemas que estão sendo denunciados no Júlia Kubitschek. É preciso corrigir as falhas, garantir estrutura adequada e segurança assistencial antes da implantação em uma unidade de alta complexidade como o João XXIII”, alertou.
