Crédito da foto: Marcelo Sant´Anna

Servidores voltam a denunciar falhas do Tasy em nova audiência na ALMG

Pela segunda vez em menos de um mês, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) reuniu profissionais de saúde, sindicalistas e gestores para discutir a implantação do prontuário eletrônico Tasy na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A audiência pública desta quinta-feira (25/6), na Comissão de Direitos Humanos, foi convocada pelo deputado estadual Lucas Lasmar (Rede), que também presidiu o encontro anterior, realizado em 2 de junho. Desta vez, a presidente da Fhemig, Renata Ferreira Leles Dias, compareceu pessoalmente para prestar esclarecimentos sobre as denúncias. O requerimento que motivou a convocação foi assinado por 14 deputados do Bloco Democracia e Luta.

Sistema de R$ 23 milhões sob críticas

Implantado de forma gradativa desde abril de 2023 — quando estreou na Maternidade Odete Valadares —, o Tasy substituiu o antigo sistema SIG e já chegou ao Instituto Raul Soares, ao Complexo Hospitalar de Barbacena, a três Casas de Saúde e, mais recentemente, ao Hospital Júlia Kubitschek, em fevereiro deste ano. O software custou mais de R$ 23 milhões aos cofres públicos.

A próxima unidade na fila é o Hospital João XXIII, principal referência em urgência e emergência do estado, o que aumenta a preocupação dos trabalhadores diante dos relatos já registrados em outras unidades.

Relatos de risco à vida de pacientes

Servidores descreveram situações graves causadas por instabilidades do sistema. A enfermeira Silvana Teixeira Fiel, do Hospital Regional de Barbacena, contou que o software já zerou o estoque de medicamentos da farmácia, obrigando a equipe a liberar remédios sem registro formal. Ela também relatou um episódio em que o sistema interpretou de forma equivocada a prescrição de um médico e indicou a aplicação endovenosa de cloreto de potássio — procedimento potencialmente letal —, evitado apenas pela atenção da equipe de enfermagem no pronto atendimento.

Carolina Guedes da Silva, técnica de enfermagem do CTI do Hospital Júlia Kubitschek, afirmou que o sistema é burocrático e tem prejudicado diretamente o cuidado com os pacientes, citando aumento de infecções, prescrições duplicadas, impressoras que não funcionam e atrasos na chegada de medicações. Já a técnica Maria da Conceição Roque, da Maternidade Odete Valadares, relatou que em situações de urgência obstétrica — como hemorragias — os profissionais já passaram a liberar materiais antes de registrá-los no sistema, justamente para não colocar pacientes em risco.

A servidora Gerusa, do Hospital João XXIII, somou às críticas a falta de estrutura de internet e de pessoal para receber o Tasy, além de relatos de ondas de calor superiores a 30°C que comprometeram a estabilidade de medicamentos por falhas no ar-condicionado.

Sindicato cobra adequações e respeito aos trabalhadores

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Fhemig, Carlos Augusto Martins, reforçou que a categoria não é contrária à informatização, mas sim à forma como o sistema foi implantado, sem o devido dimensionamento de pessoal e estrutura. Ele criticou ainda o que classificou como “dois pesos e duas medidas” na cobrança de falhas — rigorosa com os servidores, mas tolerante com erros da própria gestão, como obras refeitas por execução incorreta no Hospital João XXIII.

Martins também citou outras pautas: ausência de abono de insalubridade para profissionais que lidam com doenças infectocontagiosas, atraso no pagamento de benefícios, denúncias de assédio moral e corte no salário de servidores que participaram de greve ainda não julgada.

Fhemig admite instabilidades, mas defende o sistema

A presidente da Fhemig, Renata Ferreira Leles Dias, reconheceu dificuldades pontuais, mas defendeu a modernização trazida pelo Tasy, atribuindo parte dos problemas à fase de adaptação a uma ferramenta mais complexa, que amplia a coleta de dados e reduz o uso de papel. Segundo ela, quedas de internet e de energia elétrica não são falhas do próprio sistema, e o estado já investiu R$ 348 milhões em obras, equipamentos, cabeamento e data center entre 2020 e 2025 para sustentar a transição. Ela anunciou ainda nova licitação para substituir a empresa responsável pela manutenção do sistema, alvo de queixas recorrentes.

A gestora do Hospital Júlia Kubitschek, Cláudia de Andrade, complementou que a resistência dos profissionais não é ao Tasy em si, mas ao modo como ele foi implementado, e afirmou que a farmácia é hoje o ponto mais crítico, já discutido por uma comissão interna formada também por profissionais assistenciais.

Deputado Lucas Lasmar cobra providências e marca fiscalização

Lucas Lasmar contestou o discurso técnico apresentado pela gestão, contrapondo-o à realidade vivida nas unidades — pacientes infartados, com AVC ou pneumonia grave dependendo de um sistema que falha. Entre os encaminhamentos da audiência, Lasmar citou um projeto de lei de sua autoria que prevê a presença de um acompanhante em conversas entre servidores e gestores, como forma de coibir o assédio moral, além de propor o fim da obrigatoriedade do 11º plantão para servidores que cumprem 30 horas semanais e a regulamentação de horários de alimentação. O deputado também questionou por que a Lei de Responsabilidade Fiscal é usada para limitar melhorias aos servidores da saúde, mas não a outras categorias, como a segurança pública.

Como desdobramento do encontro, ficou agendada uma visita ao Tribunal de Contas do Estado, em 1 de julho, com sindicalistas e representantes dos técnicos operacionais de saúde, para tratar de melhorias para a categoria.

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