Crédito: Ascom / Divulgação
Sem soro, sem socorro: Governo de Minas falha com quem mais precisa
- 04/08/2025 às 11h11
- Maya Sangawa
Uma fábrica de soros reinaugurada, mas sem produzir. Crianças picadas por animais peçonhentos sem acesso ao soro que poderia salvá-las. Hospitais do interior operando com estoques zerados de antivenenos, em plena expansão de casos graves. Esse é o retrato do colapso silencioso que atinge diversas regiões de Minas Gerais — e que escancara o abismo entre os anúncios do Governo do Estado e a realidade da saúde pública.
A denúncia foi reforçada pelo deputado estadual Lucas Lasmar (Rede), que solicitou à Secretaria Estadual de Saúde os dados oficiais sobre o fornecimento de soros antivenenos em todas as regiões do estado entre 2022 a 2024. O material revela que, mesmo nas áreas onde o número de mortes por picadas disparou, como no Norte e no Nordeste mineiro, o fornecimento de antídotos foi insuficiente para conter a escalada de internações e óbitos — muitos deles evitáveis.
Fornecimento aquém da demanda
As macrorregiões Norte e Nordeste de Minas Gerais concentraram, nos últimos anos, as maiores taxas de acidentes com escorpiões, serpentes e aranhas venenosas. Só em 2023, Minas registrou mais de 30 mil ocorrências com animais peçonhentos, sendo 19.184 causadas por escorpiões. Desse total, 67 casos evoluíram para morte, o que representou mais da metade de todos os óbitos registrados no Brasil naquele ano.
Em cidades como Montes Claros, Bocaiúva, Salinas, Janaúba e Jequitaí, o número de óbitos e hospitalizações aumentou de forma alarmante, especialmente entre crianças de até 9 anos — grupo considerado mais vulnerável. Em Montes Claros, por exemplo, foram distribuídas apenas 206 ampolas de soro antiaracnídico, 1.988 de antibotrópico e 882 de anticrotálico. Já em Januária, apesar da entrega de mais de 2.000 ampolas de soro antiescorpiônico, a letalidade seguiu em crescimento.
“Mesmo onde houve reforço no envio de soros, ele não acompanhou o crescimento dos acidentes. Em muitos hospitais, o paciente grave não encontra o antídoto no momento necessário”, denuncia Lucas Lasmar.
Uma fábrica reinaugurada… e ainda parada
Em março de 2025, o Governo de Minas anunciou com grande alarde a “reinauguração” da Fábrica de Soros da Fundação Ezequiel Dias (Funed), fechada desde 2016. A promessa era produzir até 200 mil ampolas por ano, o equivalente a cerca de 40% da demanda nacional, e reduzir a dependência do Estado em relação ao Instituto Butantan.
A previsão oficial é que os primeiros lotes sejam entregues a partir de agosto de 2025, com a produção regular iniciando no ano seguinte, o que não aconteceu.
A situação se agrava diante da notícia de que a fazenda da Funed, onde estão os cavalos utilizados na extração do plasma para produção dos soros, foi incluída na lista de imóveis estaduais negociados com a União pelo programa Propag, para abatimento de parte da dívida do Estado. Ou seja: o próprio local onde a cadeia produtiva começa foi tratado como moeda de troca pelo governo estadual.
Essa movimentação coloca em xeque o futuro da produção de antídotos pela Funed, pois a continuidade da produção depende justamente da estrutura instalada nessa fazenda. Se a cessão se concretizar, não haverá cavalos, nem plasma — e, portanto, nenhuma ampola.
“Não há como prometer retomada da produção se o governo está negociando o terreno onde essa produção começa. É mais uma contradição grave, que reforça a urgência de políticas sérias e transparentes”, alerta o deputado Lucas Lasmar.
Uma lei para evitar novas tragédias
Diante desse cenário, Lucas Lasmar apresentou o Projeto de Lei nº 3.202/2024, que institui a chamada Lei Álvaro Matias, nome dado em homenagem ao menino de apenas 5 anos, morto em novembro de 2024 após ser picado por um escorpião nas dependências da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
O projeto torna obrigatória a disponibilização de estoques atualizados de soros antivenenos em todos os hospitais do estado, com ênfase na adequação regional ao tipo de fauna peçonhenta predominante. A proposta também determina que a Secretaria de Saúde promova levantamentos periódicos, oriente tecnicamente os hospitais e desenvolva campanhas de prevenção. “A morte de Álvaro abalou todo o estado. Mas, infelizmente, ele não foi a única criança vítima da negligência. Essa lei é um passo concreto para evitar novas perdas”, afirma Lasmar.
Falta de planejamento resulta em mortes evitáveis
A crise do soro em Minas não é apenas uma falha de abastecimento. Ela é sintoma de um sistema que não se preparou para responder à expansão dos acidentes. O tempo entre a picada e a aplicação do antídoto é decisivo — e a ausência do soro no momento certo transforma acidentes tratáveis em tragédias.
Relatos de estoques zerados, remanejamento de antídotos entre hospitais e a priorização apenas dos casos mais graves se tornaram corriqueiros. Em muitas cidades, o transporte até uma unidade equipada com o soro pode levar horas — tempo que o veneno não perdoa. “O Estado precisa agir agora. Não dá mais para esperar. Não podemos naturalizar mortes que seriam evitáveis com uma simples ampola de soro”, conclui Lucas Lasmar.